Sempre que dou comigo a divagar sobre a vida, sobre o que somos, o que fazemos, as decisões que tomamos e os caminhos que escolhemos,a conclusão a que chego invariavelmente é que não podemos perder o sentido crítico em relação a nós próprios.
A verdade é que eu própria já o perdi. Dizem-me que o reencontrei, felizmente. Num casamento onde eu não estava bem, acordei certo dia e dei comigo a partilhar a minha vida com um homem que eu não gostava como marido, como pai, como amante, como amigo. Não gostava dele sequer como pessoa. As (poucas) discussões resumiam-se às minhas queixas, que ele desmultiplicava com sequências lógicas e intermináveis de argumentos ocos que conduziam à demonstração prática de que éramos felizes. E a discussão terminava comigo a ouvi-lo questionar: "Mas como é que não percebes que nós somos felizes?".
Quando estamos emocionalmente envolvidos nos problemas, cometemos erros. E o meu erro era duvidar de mim própria. Ouvir o raciocínio encadeado que ele construía e a conclusão a que chegava, fazia-me duvidar. "Será que, de facto, sou eu que não tenho capacidade para perceber que sou feliz?".
Tinha perdido o meu sentido crítico... A partir do momento em que permitimos este tipo de dúvidas, a dimensão dos problemas aumenta exponencialmente. Porque o problema deixa de estar na relação e passa a estar em nós próprios. Como é que se dá o pontapé de saída quando aceitamos que sejam os outros a informar-nos do grau da nossa felicidade? É a perca total de identidade. Não, eu não era feliz naquela relação. Ponto final. Mas tinha perdido o meu sentido crítico. E quando se perde o sentido crítico, o que é transparente e bem definido torna-se muito escuro e desfocado. Deixamos de ver o que é óbvio.
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