Sempre que dou comigo a divagar sobre a vida, sobre o que somos, o que fazemos, as decisões que tomamos e os caminhos que escolhemos,a conclusão a que chego invariavelmente é que não podemos perder o sentido crítico em relação a nós próprios.
A verdade é que eu própria já o perdi. Dizem-me que o reencontrei, felizmente. Num casamento onde eu não estava bem, acordei certo dia e dei comigo a partilhar a minha vida com um homem que eu não gostava como marido, como pai, como amante, como amigo. Não gostava dele sequer como pessoa. As (poucas) discussões resumiam-se às minhas queixas, que ele desmultiplicava com sequências lógicas e intermináveis de argumentos ocos que conduziam à demonstração prática de que éramos felizes. E a discussão terminava comigo a ouvi-lo questionar: "Mas como é que não percebes que nós somos felizes?".
Quando estamos emocionalmente envolvidos nos problemas, cometemos erros. E o meu erro era duvidar de mim própria. Ouvir o raciocínio encadeado que ele construía e a conclusão a que chegava, fazia-me duvidar. "Será que, de facto, sou eu que não tenho capacidade para perceber que sou feliz?".
Tinha perdido o meu sentido crítico... A partir do momento em que permitimos este tipo de dúvidas, a dimensão dos problemas aumenta exponencialmente. Porque o problema deixa de estar na relação e passa a estar em nós próprios. Como é que se dá o pontapé de saída quando aceitamos que sejam os outros a informar-nos do grau da nossa felicidade? É a perca total de identidade. Não, eu não era feliz naquela relação. Ponto final. Mas tinha perdido o meu sentido crítico. E quando se perde o sentido crítico, o que é transparente e bem definido torna-se muito escuro e desfocado. Deixamos de ver o que é óbvio.
sexta-feira, 27 de março de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
e doem! (parte III e última)

Chega a hora me ir embora. Baixo-me e digo-lhe: "R., vou-me embora, está bem?". Fixa de novo o olhar em mim, resignado. "Queres dar-me um abraço?", pergunto. Atira-se aos meus braços com tal intensidade que desta vez sou eu perco o equilíbrio. Ou os equilíbrios. Recomponho-me e levo-o para o último brinquedo da tarde. Um de cada vez, ele e o B., sento-os e vou-os fazendo rodar sobre si próprios, ora num sentido ora no outro para não ficarem tontos. Riem-se até que os informo da chegada da última voltinha.
Peço ao R. para fechar os olhos e digo-lhe que ele é um menino muito bonito e muito especial. "Nunca te esqueças do que acabei de te dizer, está bem?". Ele mantém os olhos fechados. A mãe reclama: "Não ouves a Senhora a falar contigo?". Respondo: "Ele está a ouvir muito bem o que estou a dizer. Não estás, R.?". Ele sorri e mantém os olhos fechados. Digo-lhe que me vou mesmo embora e ele abraça-me de novo. Desta vez, enche-me de beijos também. Quando a mãe lhe diz que eles também se vão embora, o R. informa-me: "Eu vou de autocarro, e tu?". Respondo-lhe que não, que não vou de autocarro e desvio a conversa para dizer que o B. também gosta muito de andar de metro. Troca oca de palavras com a mãe do R. sobre os transportes em que os miúdos gostam de andar.
Porque a verdade é que a pergunta do R. me deixa desconfortável com o conforto do Citroën estacionado a meia-dúzia de passos. Uma pergunta inofensiva na boca de uma criança quase desconhecida é um tiro certeiro nos consumismos, nos supérfluos, nos excessos, nas desigualdades e nas nossas permanentes insatisfações. Quando o que é verdadeiramente importante está tão próximo de nós, caramba. Deve ser por isso que, às vezes, não tem os contornos bem definidos. Está tão próximo que fica desfocado.
O segredo, digo eu, está na magia de descobrirmos que as coisas simples, que estão mesmo aqui à mão de semear, nos deixam felizes. Para isso, nem são necessários grandes esforços. Precisamos apenas de estar disponíveis para elas. E atentos. O "ser" em detrimento do "ter". Ou melhor, ter vontade de ser. Gente.
Vou tentar não me esquecer de tudo o que aprendi hoje com o R....
segunda-feira, 16 de março de 2009
e doem... (parte II)

Apetece-me fugir porque não percebo, mas não fujo. A tentativa frustada da mãe é um gesto sem naturalidade. Como se ela tentasse aproximar-se do que está muito, muito distante. Pergunto-me se não serão crianças institucionalizadas.
O meu pequeno quer a mãe agora para jogar às escondidas. Incluo o outro no jogo. Começo eu a contar. "Cá vou eu" e descubro-os entre cócegas, "1, 2, 3, não salva ninguém". R. abraça-me de novo. Os seis anos ainda não sabem contar até 10 e são ajudados pela mãe. Descobre o meu esconderijo e fixa, de novo, o olhar em mim.
O B. chama-me e a mãe afasta o outro. Vou para o balancé e vejo-os, mãe e os três filhos, a sairem do parque em direcção ao bebedouro. Pergunto-me se voltarão. A mãe levanta a mão, a prometer a R. uma chapada que não saiu (desta vez). Balanço-me com o B. e sou uma mãe feliz por ter o meu B.. Ele também tem sorte em me ter a mim, dizem-me muitas vezes e neste instante acredito. "B., de todos os meninos do Mundo inteiro sabes quem é que eu escolhia para meu filho??", "Sei, 'éro' eu", "Pois eras!". O B. põe-se de pé na parte central do balancé. Eu balanço-o: "Olha o B. a surfar no oxigénio!". A risota atrai de novo R.: "Também quero", pede com a voz e com os olhos. Mas R. tem dificuldade em manter o equilíbrio. Dói-me pensar que R. tem dificuldade em manter outros equilíbrios.
Saio e sento-me no banco do jardim a observar os dois a brincar. Quando o B. se farta, vem dar-me um beijo relâmpago e dispara a correr para outras alegrias. O R. vem encaixar-se nas minhas pernas. Abraço-o, ele abraça-me e não pretende sair dali. A mãe tenta afastá-lo: "Já chega, deixa a Senhora". Ele ignora a instrução. "Não, deixe estar, a sério", mas sou eu que termino o abraço com a sugestão de irmos até ao baloiço.
Empurro o B. enquanto a mãe empurra o R.. Aquela mãe não sabe empurrar um baloiço. Exerce a pressão numa das correntes e o R. vai aos zigue-zagues para a frente e para trás... No baloiço, como na vida. Reclama que seja eu a empurrá-lo. Embalado, larga uma corrente e quase cai. Magoa-se mas não se queixa quando olha para o dedo ferido. Poucas vezes terá brincado assim, este R. A mãe mostra-se aflita enquanto eu lhe seguro o dedo e digo: "Magoaste-te!". Ele não confirma. Pergunto-lhe se quer um beijinho para ajudar a passar a dor, mas o R. não percebe o que acabei de dizer. Olha de novo para o dedo e permanece estático. Dou-lhe o tal beijinho e pergunto-lhe se ficou melhor. Ele não responde, mas sorri timidamente. Baixo-me e digo-lhe então com firmeza: "R., assim não. Assim não te empurro. Nunca se largam as correntes, está bem? Senão podes magoar-te e eu não quero." Apetecia-me ter-lhe dito: "R., por favor, não te deixes magoar assim, agarra-te muito bem às correntes que te ajudem a segurar os balanços da vida".
(esta história continua... ah pois continua!)
sexta-feira, 13 de março de 2009
quarta-feira, 11 de março de 2009
Ele há constrangimentos... que doem (parte I)

Sábado à tarde. Fui passear o rebento ao jardim. A paródia era o puto ser o pirata em cima do barco e eu o tubarão que o atacava ferozmente.
Na folia, o pirata deixa cair a pastilha elástica que masca e o tubarão agarra-a e grita ao mundo: "Eu sou um tubarão que põe pastilhas elásticas no caixote do lixo!". A piada provoca gargalhadas deliciosas no pirata (missão cumprida!) e, quando regresso ao barco, está outra criança a olhar para nós. Recomeço a empurrar o barco, a outra criança fixa o olhar em mim e eu convido-a a juntar-se à brincadeira. São um olhar forte e um sorriso tímido, que embarcam.
O barco custa a empurrar e o tubarão cansa-se. "Agora empurram-me vocês", digo. Os dois tentam empurrar-me e a dificuldade da acção provoca-lhes risos. O meu pirata farta-se da história e vai direito ao escorrega. O tubarão renasce e persegue-o, mas sem sucesso. O pirata escapa-se para outras brincadeiras.
"Senhora, podes brincar comigo?", ouço. Corrijo-o: "Bardala, o meu nome é Bardala e sim, posso brincar contigo". "Obrigado, Bardala". Abraça-se às minhas pernas com força, este miúdo que me agradeceu assim dizer-lhe que brincava com ele. Observo-o com mais atenção. É o mais novo de três irmãos (com vidas difíceis, parece-me). Uma mãe velha, preocupada e sofrida. Sei, por ela, que o miúdo se chama R. e que tem 6 anos. Mais um do que o meu, mas bem mais baixo, bem mais imaturo, bem mais sôfrego por afectos.
Visto de novo a pele do tubarão que persegue, agora, outro pirata. Há risos. O meu pequeno observa-me mas continua noutras brincadeiras. "Já estou farta desta brincadeira, este barco é muito pesado, R.". A mãe quer e começa ela a empurrar o barco. Não consegue, é preciso ter a força da liberdade para se empurrar aquele barco.
(continua e aviso que vai dar para uns 20 capítulos, pelo menos)
quinta-feira, 5 de março de 2009
Com ou sem constrangimentos?
Agora que aprendi esta coisa de ficar feliz pelos outros, não quero outra vida... Desta vez, foram os meus meninos. Quando soube, ocorreu-me apenas que para eles também deveria estar a ser muito bom! Porque para mim, e para todos nós, era o máximo! A histeria é comunitária!
Não vou resistir a um último conselho para os meus meninos: J, deixa-te de paneleirices! B, deixa de te armar em paneleiro!
E agora, as primeiras reacções:
J, a bombardear a notícia para o mundo inteiro com a sua poderosa arma (que como tooooodos sabemos é o telefone) e já a preparar os convites para estar tudo prontinho quando o casamento gay for aprovado.
B, estático. Com um sorriso patético e olhinhos de puto com o brinquedo mais desejado a receber os cumprimentos da comunidade em geral.
Bardala: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Arrotei para vocês! Será que vou ter descanso finalmente? E voltar a ter uma vida tipo normal, poder regressar às minhas desgracinhas?"
Mãe-basca: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Será que vou ter descanso finalmente? E poder limpar cocós e dar de mamar ao puto em paz?"
Pai-basco: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Será que vou ter descanso finalmente? Hum, vou pensar na melhor piada para esta história..."
Mãe-prenha: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Perreiruu, não? O quê?! Não houve enrabanço?? Puff, meninas..."
Pai-prenho: "Chiça, finalmente! Qual é a história que eu já vomitava pelos olhos? Ah, essa... Já acabou? Ufa... Boa, isso é que é preciso."
Oportunidades-IKEA : "Chiça, finalmente! (...) pelos olhos! I'm so very happy! Já estava a pensar pôr os meninos na máquina da louça antes de os mandar para a reciclagem..."
Chingalinga: "Chiça, finalmente! Já o quê? Nem pensar, não vou dizer isso... Oooohhh, yenwei, yaogiu quan."
Mandarina: "Caracinhas, finalmente! Já andávamos todos a viajar na maionese com esta história! Tããão catita, pááá. Vamos lá às compras para festejar!"
Pluma Pino: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Ó môris, 'tou tão contenti!!Vocês... Nunca me enganaram, seu sonsos!"
Cereja: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Muito feliz por vocês, pronto, já posso voltar para as minhas nuvens?"
Mr. Playstation3: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Melhor que isto só mesmo ganhar 3 jogos de seguida ao puto."
Mrs. Playstation3: "O J. e o B. outra vez? 'Tá bem, 'tá... E eu é com o Brad Pitt!" (ainda não acreditava que já podia vomitar a história pelos olhos)
Arkiteta: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... E mais? Quero saber, quero saber! Mas não conto nada a ninguém, nem pensem!"
Kit: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Fico muito feliz por vo... TÓTÓ, LARGA O MEU PRATO"
E pronto, resta-me só apresentar o meu pedido de desculpas aos muitos milhares que ficaram de fora...
Gosto muito de vocês, meus meninos!!
Não vou resistir a um último conselho para os meus meninos: J, deixa-te de paneleirices! B, deixa de te armar em paneleiro!
E agora, as primeiras reacções:
J, a bombardear a notícia para o mundo inteiro com a sua poderosa arma (que como tooooodos sabemos é o telefone) e já a preparar os convites para estar tudo prontinho quando o casamento gay for aprovado.
B, estático. Com um sorriso patético e olhinhos de puto com o brinquedo mais desejado a receber os cumprimentos da comunidade em geral.
Bardala: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Arrotei para vocês! Será que vou ter descanso finalmente? E voltar a ter uma vida tipo normal, poder regressar às minhas desgracinhas?"
Mãe-basca: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Será que vou ter descanso finalmente? E poder limpar cocós e dar de mamar ao puto em paz?"
Pai-basco: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Será que vou ter descanso finalmente? Hum, vou pensar na melhor piada para esta história..."
Mãe-prenha: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Perreiruu, não? O quê?! Não houve enrabanço?? Puff, meninas..."
Pai-prenho: "Chiça, finalmente! Qual é a história que eu já vomitava pelos olhos? Ah, essa... Já acabou? Ufa... Boa, isso é que é preciso."
Oportunidades-IKEA : "Chiça, finalmente! (...) pelos olhos! I'm so very happy! Já estava a pensar pôr os meninos na máquina da louça antes de os mandar para a reciclagem..."
Chingalinga: "Chiça, finalmente! Já o quê? Nem pensar, não vou dizer isso... Oooohhh, yenwei, yaogiu quan."
Mandarina: "Caracinhas, finalmente! Já andávamos todos a viajar na maionese com esta história! Tããão catita, pááá. Vamos lá às compras para festejar!"
Pluma Pino: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Ó môris, 'tou tão contenti!!Vocês... Nunca me enganaram, seu sonsos!"
Cereja: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Muito feliz por vocês, pronto, já posso voltar para as minhas nuvens?"
Mr. Playstation3: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Melhor que isto só mesmo ganhar 3 jogos de seguida ao puto."
Mrs. Playstation3: "O J. e o B. outra vez? 'Tá bem, 'tá... E eu é com o Brad Pitt!" (ainda não acreditava que já podia vomitar a história pelos olhos)
Arkiteta: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... E mais? Quero saber, quero saber! Mas não conto nada a ninguém, nem pensem!"
Kit: "Chiça, finalmente! Já vomitava esta história pelos olhos... Fico muito feliz por vo... TÓTÓ, LARGA O MEU PRATO"
E pronto, resta-me só apresentar o meu pedido de desculpas aos muitos milhares que ficaram de fora...
Gosto muito de vocês, meus meninos!!
segunda-feira, 2 de março de 2009
Mandarina, sem constrangimentos
É-se feliz porque se tem saúde, e a família também, porque se tem um bom emprego, e muitos amigos, é-se feliz porque os filhos são lindos, porque nasceu uma criança, porque se encontrou uma nota de 50€ esquecida num bolso do casaco, é-se feliz por muitas e boas razões.
Na tua festa conhecemos outra forma de sermos felizes. Fomos felizes porque estavas feliz. Olhávamos para ti e ficávamos deliciados, nem nos lembrávamos que existíamos. Ou melhor, existíamos, mas como se fôssemos sugados pela tua alegria. Todos sentimos o mesmo. Alguém que consegue oferecer toda essa felicidade aos amigos é muito especial! Alguém que, só porque olhou, colou um sorriso em tantas caras é muito especial!
Mandarina, obrigada!
Na tua festa conhecemos outra forma de sermos felizes. Fomos felizes porque estavas feliz. Olhávamos para ti e ficávamos deliciados, nem nos lembrávamos que existíamos. Ou melhor, existíamos, mas como se fôssemos sugados pela tua alegria. Todos sentimos o mesmo. Alguém que consegue oferecer toda essa felicidade aos amigos é muito especial! Alguém que, só porque olhou, colou um sorriso em tantas caras é muito especial!
Mandarina, obrigada!
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