
Apetece-me fugir porque não percebo, mas não fujo. A tentativa frustada da mãe é um gesto sem naturalidade. Como se ela tentasse aproximar-se do que está muito, muito distante. Pergunto-me se não serão crianças institucionalizadas.
O meu pequeno quer a mãe agora para jogar às escondidas. Incluo o outro no jogo. Começo eu a contar. "Cá vou eu" e descubro-os entre cócegas, "1, 2, 3, não salva ninguém". R. abraça-me de novo. Os seis anos ainda não sabem contar até 10 e são ajudados pela mãe. Descobre o meu esconderijo e fixa, de novo, o olhar em mim.
O B. chama-me e a mãe afasta o outro. Vou para o balancé e vejo-os, mãe e os três filhos, a sairem do parque em direcção ao bebedouro. Pergunto-me se voltarão. A mãe levanta a mão, a prometer a R. uma chapada que não saiu (desta vez). Balanço-me com o B. e sou uma mãe feliz por ter o meu B.. Ele também tem sorte em me ter a mim, dizem-me muitas vezes e neste instante acredito. "B., de todos os meninos do Mundo inteiro sabes quem é que eu escolhia para meu filho??", "Sei, 'éro' eu", "Pois eras!". O B. põe-se de pé na parte central do balancé. Eu balanço-o: "Olha o B. a surfar no oxigénio!". A risota atrai de novo R.: "Também quero", pede com a voz e com os olhos. Mas R. tem dificuldade em manter o equilíbrio. Dói-me pensar que R. tem dificuldade em manter outros equilíbrios.
Saio e sento-me no banco do jardim a observar os dois a brincar. Quando o B. se farta, vem dar-me um beijo relâmpago e dispara a correr para outras alegrias. O R. vem encaixar-se nas minhas pernas. Abraço-o, ele abraça-me e não pretende sair dali. A mãe tenta afastá-lo: "Já chega, deixa a Senhora". Ele ignora a instrução. "Não, deixe estar, a sério", mas sou eu que termino o abraço com a sugestão de irmos até ao baloiço.
Empurro o B. enquanto a mãe empurra o R.. Aquela mãe não sabe empurrar um baloiço. Exerce a pressão numa das correntes e o R. vai aos zigue-zagues para a frente e para trás... No baloiço, como na vida. Reclama que seja eu a empurrá-lo. Embalado, larga uma corrente e quase cai. Magoa-se mas não se queixa quando olha para o dedo ferido. Poucas vezes terá brincado assim, este R. A mãe mostra-se aflita enquanto eu lhe seguro o dedo e digo: "Magoaste-te!". Ele não confirma. Pergunto-lhe se quer um beijinho para ajudar a passar a dor, mas o R. não percebe o que acabei de dizer. Olha de novo para o dedo e permanece estático. Dou-lhe o tal beijinho e pergunto-lhe se ficou melhor. Ele não responde, mas sorri timidamente. Baixo-me e digo-lhe então com firmeza: "R., assim não. Assim não te empurro. Nunca se largam as correntes, está bem? Senão podes magoar-te e eu não quero." Apetecia-me ter-lhe dito: "R., por favor, não te deixes magoar assim, agarra-te muito bem às correntes que te ajudem a segurar os balanços da vida".
(esta história continua... ah pois continua!)

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