quarta-feira, 18 de março de 2009

e doem! (parte III e última)


Chega a hora me ir embora. Baixo-me e digo-lhe: "R., vou-me embora, está bem?". Fixa de novo o olhar em mim, resignado. "Queres dar-me um abraço?", pergunto. Atira-se aos meus braços com tal intensidade que desta vez sou eu perco o equilíbrio. Ou os equilíbrios. Recomponho-me e levo-o para o último brinquedo da tarde. Um de cada vez, ele e o B., sento-os e vou-os fazendo rodar sobre si próprios, ora num sentido ora no outro para não ficarem tontos. Riem-se até que os informo da chegada da última voltinha.
Peço ao R. para fechar os olhos e digo-lhe que ele é um menino muito bonito e muito especial. "Nunca te esqueças do que acabei de te dizer, está bem?". Ele mantém os olhos fechados. A mãe reclama: "Não ouves a Senhora a falar contigo?". Respondo: "Ele está a ouvir muito bem o que estou a dizer. Não estás, R.?". Ele sorri e mantém os olhos fechados. Digo-lhe que me vou mesmo embora e ele abraça-me de novo. Desta vez, enche-me de beijos também. Quando a mãe lhe diz que eles também se vão embora, o R. informa-me: "Eu vou de autocarro, e tu?". Respondo-lhe que não, que não vou de autocarro e desvio a conversa para dizer que o B. também gosta muito de andar de metro. Troca oca de palavras com a mãe do R. sobre os transportes em que os miúdos gostam de andar.
Porque a verdade é que a pergunta do R. me deixa desconfortável com o conforto do Citroën estacionado a meia-dúzia de passos. Uma pergunta inofensiva na boca de uma criança quase desconhecida é um tiro certeiro nos consumismos, nos supérfluos, nos excessos, nas desigualdades e nas nossas permanentes insatisfações. Quando o que é verdadeiramente importante está tão próximo de nós, caramba. Deve ser por isso que, às vezes, não tem os contornos bem definidos. Está tão próximo que fica desfocado.
O segredo, digo eu, está na magia de descobrirmos que as coisas simples, que estão mesmo aqui à mão de semear, nos deixam felizes. Para isso, nem são necessários grandes esforços. Precisamos apenas de estar disponíveis para elas. E atentos. O "ser" em detrimento do "ter". Ou melhor, ter vontade de ser. Gente.
Vou tentar não me esquecer de tudo o que aprendi hoje com o R....

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